sábado, 12 de março de 2011

EDUCAÇÃO E COMUNIDADE



A escola e o contexto local

Por Anderson Benelli

É muito comum ouvirmos educadores(as) e pais dizerem que a escola – e com escola quero dizer os seres humanos que a compõem, assim como a cidade, ela não é feita de concreto e sim dos seres humanos que formam essa sociedade - é nossa segunda casa e, por isso, devemos respeitá-la. Mas que casa é essa onde a palavra de ordem é não? Onde educandos(as) não podem exercer o seu direito a palavra e nem fazer nada no qual se reconhecem?
Os(As) educandos(as) não se reconhecem na escola, porque a escola ainda não se reconhece como parte da comunidade que está inserida, se o museu é o mundo como diz Hélio Oiticica[2], a escola também o é. E é no mundo que se faz o processo de ensino/aprendizagem aprendemos em contato com o mundo e com o outro como bem disse Paulo Freire.
Durante o debate Além dos muros da escola que ocorreu no Terreiro[3] Eu sou a Rua na 29ª Bienal de São Paulo uma educadora disse que a escola é desestimulante para os(as) alunos(as) por três fatores: é todo dia, é obrigatória e é um espaço coletivo. Por ser uma atividade rotineira em um espaço coletivo eu não posso expressar minha identidade como indivíduo? Isso não parece o suficiente para justificar o desinteresse de grande parte dos(as) educandos(as), já que durante toda vida convivemos coletivamente cumprindo com obrigações rotineiras. O ser humano chega ao mundo já inserido em uma pequena sociedade, a família. Depois vem o convívio com irmãos, parentes, amigos, desafetos, etc. Ou seja, obrigatoriamente vivemos todos os dias coletivamente e nem por isso a vida é desestimulante, a não ser que o indivíduo esteja sofrendo de desesperança e/ou depressão. A escola é o lugar onde fazemos novas amizades, lugar de encontros com colegas, amigos(as), namoradas(os). Como um lugar que proporciona tantas experiências e encontros interessantes pode ser tão desestimulante?
Infelizmente, muitas escolas ainda não se reconhecem como parte da comunidade, automaticamente, a comunidade não se reconhece na escola e, consequentemente, os(as) educandos(as) como indivíduos dessa comunidade também não. Ao que parece, os maiores responsáveis por esse ambiente opressivo em sala de aula que afasta os(as) educandos(as) são: o currículo, o projeto pedagógico e a metodologia de ensino de alguns professores, dos quais muitos também foram vítimas de um ensino/aprendizagem opressor. E exatamente por isso, uma parte considerável deles não tem consciência crítica desse fato. E por sofrerem com uma educação “bancária” tratados como recipientes vazios a receberem conhecimento como depósito, acabam ensinando como aprenderam. Essa educação não interessa ao povo, além de não estimular a reflexão, faz o oposto, a inibe, reprimindo a autonomia e rebeldia, qualidades de valor imensurável no engajamento por mudanças. Essa educação resulta na preservação da hierarquia social. Porque “caminhos permitidos são rotas de escravidão e caminhos proibidos são rotas de libertação” (Fora de Frequência, 2010.), se repudia a rebeldia que estimula a autonomia e consciência crítica. Ou seja, essa educação “bancária” defende os interesses da classe dominante, inibindo a reflexão, a consciência crítica da realidade, a autonomia, o exercício da palavra dos oprimidos. Com isso, forma-se um povo domesticado facilitando a manipulação da opinião pública e a distorção da realidade social. Evita-se assim, que o povo enxergue as injustiças sociais e se rebele na luta por transformações contra um sistema social escravocrata.
Os muros que isolam a escola são muito mais que barreiras físicas, o muro físico é insignificante perto dos muros que muitos não conseguem ver, a escola ainda é uma instituição de controle onde indivíduos entram diferentes para saírem iguais. A igualdade que nós educadores(as) devemos buscar é a igualdade heterogênea, ou seja, a igualdade de respeito mútuo das diversidades e não a igualdade  de cultura homogênea. Como atender as necessidades das diversidades culturais dos(as) educandos(as) e tornar o ensino/aprendizagem mais significativo?
Precisamos ter como conteúdo de ensino o foco de interesse dos(as) educandos(as) em uma abordagem interdisciplinar e intercultural. O grande problema nesse sentido é que parte dos(as) professores(as) ainda temem as manifestações culturais de interesse dos jovens por terem sido ensinados a temerem a rebeldia e subversão. As manifestações juvenis, normalmente, são carregadas dessas duas qualidades, o que reforça a necessidade de serem exploradas. Pois, essas são qualidades indispensáveis para um ensino/aprendizagem que valoriza a autonomia e consciência crítica dos(as) educandos(as). Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador”.
Por que a rua atrai mais do que a escola?
Os(As) educandos(as) esperam da escola que ela seja um território de liberdade, essa expectativa aumenta quando o(a) aluno(a) também se sente oprimido em casa, e a escola deve ser esse território de liberdade. Porém, é importante que não confundamos liberdade com algazarra, a escola temendo a segunda se torna o oposto, um lugar de repressão.
A rua permite que o sujeito exercite sua autonomia resolvendo conflitos, vivenciando diversas experiências em contato com o outro e a realidade com a qual se identifica e, através de diferentes manifestações exerça sua palavra e, consequentemente, seu direito de “ser mais”. Ou seja, a rua se torna esse território de liberdade onde o indivíduo pode fazer suas próprias escolhas com as quais se identifica, rebelando-se contra os dogmas instituídos por um sistema social opressor, o indivíduo se sente livre ou pelo menos se libertando. Mas, como fazer da escola um território de liberdade?
É preciso eliminar as fronteiras entre a rua e a escola, entre a realidade e a educação. Os(As) educadores(as) precisam tomar como temas de seus projetos pedagógicos o foco de interesse dos(as) educandos(as), a rua os atrai mais do que a escola porque essa propicia o contato direto com esses temas e com a realidade.
É contraditório se pararmos para pensar que os círculos de cultura filosóficos de Sócrates e seus companheiros foram a base referencial da academia, já que essa, parece fazer o oposto em sua proposta. Enquanto nos círculos filosóficos que geravam debates conceituais sobre a condição humana no mundo e em convívio com o outro, onde todos ouviam e exercitavam a palavra. Nas escolas as carteiras são dispostas em fila com olhar dos(as) alunos(as) em direção ao mestre que, como um santo em um altar descarrega seu sermão que não deve ser interrompido pelos fiéis, deve ser ouvido sem questionamento porque o que ele diz é a verdade divina.
Nós educadores(as) precisamos repensar nossa prática de ensino/aprendizagem, nos apropriarmos das novas tecnologias, da rua e da realidade. E a partir dos focos de interesse dos(as) educandos(as) problematizar nossa condição social no mundo e com o outro derrubando as fronteiras entre educação e realidade, escola e comunidade, educadores(as) e educandos(as). Assim, conseguiremos fazer do processo de ensino/aprendizagem algo realmente significativo, tanto para educandos(as) quanto para educadores(as), transformando a escola em um lugar de pertencimento, não só do educando(a) mas, de toda comunidade, formando sujeitos conscientes e engajados em busca de mudanças e melhores condições sociais para todos.






[2] Artista brasileiro que fez parte do grupo Neoconcreto e do movimento da Nova Objetividade composto por Ferreira Gullar, Lygia Clark, Lygia Pape, entre outros artistas. Para saber mais pesquise sobre o assunto.
[3] Nome dado pela curadoria da 29ª Bienal de São Paulo à seis instalações de diferentes artistas que relacionam poeticamente as obras que fazem parte desses Terreiros. O termo Terreiro é usado como lugar de convívio, festejos e diálogos e não existe tradução para outra língua por só conter significado no Brasil e em Angola.



6 comentários:

J.R.S disse...

Anderson, achei o texto incrível, de uma percepção rica para a realidade atual,

concordo: "Os(As) educadores(as) precisam tomar como temas de seus projetos pedagógicos o foco de interesse dos(as) educandos(as)"

Infelizmente vivemos em uma sociedade que apóia esse sistema educacional, como foi abordado em seu texto, é um sistema que "nutre o básico" para o exercício de trabalho "escravocrata". Precisamos de uma reforma, mas confesso que todos os dias em uma rua perto de casa faço a seguinte leitura de uma pixação: "Sei para onde, mas não sei por onde". o engraçado que esse pixo ele me provoca, ao ponto de sempre tentar achar o caminho do "por onde".

Anderson Benelli disse...

J.R.S Obrigado pela visita e pelo comentário e seja sempre bem vinda.

Ci Yama disse...

Quando fazemos parte da "educação" de outrem a reflexão se torna a melhor e mais justa ferramenta de trabalho. Adorei sua postagem porque ela nos leva exatamente a isso, como você mesmo propõe. Te parabenizo, porque o objetivo foi alcançado e não só concordo como vivencio esta realidade de confronto entre educandos e educadores por causa de interesses. É mais que claro que todas as armas para domá-los já foram e são usadas sem sucesso. Sempre paira a pergunta estarrecedora: - O que mais temos que fazer para satisfazer essa nova geração?
Seu post dá aquela cutucadinha boa que amedronta muitos dos educadores...

Anderson Benelli disse...

inthia muito obrigado pela sua visita e comentário, seja sempre bem vinda.

Cinthia acredito que as armas para "domá-los" não funcionam, pq não é esse tipo de relação que deve existir entre educador(a) e educandos(as), e/ou em toda e qualquer tipo de relação entre seres autônomos. Não é uma relação de domínio sobre o outro e sim uma relação dialética. Infelizmente muitos educadores(as), e adultos em geral, se esquecem que tb foram crianças e adolescentes e como é viver essas fases, costuma tranferir toda a culpa pelos conflitos gerados aos educandos(as) negando sua parte de responsabilidade sobre esse conflito.
Em toda e qualquer tentativa de domínio sobre um outro ser autônomo haverá um ato de resistência contra esse domínio. Esse ato de rebeldia só demonstra que o outro não aceitará passivamente essa tentativa de domínio e isso, ao meu ver, é extremamente positivo. É disso que a nossa sociedade precisa de um povo rebelde que não aceite as imposições do opressor e proteste contra isso, nós educadores(as) devemos aproveitar essa rebeldia para formarmos indivíduos engajados.
É sempre bom lembrar que o diálogo nasce a partir do conflito, e o conflito cognitivo gera reflexão e conscientização.
Mas, infelizmente muitas escolas mantém a política de treinamento de animais, "se o aluno agir conforme o programa ganha um biscoito se não aceitar ser programado é castigado", e isso é lastimável.

O dia-a-dia dessa relação é complexa e nada fácil e dificultada, ainda mais, pela condição de trabalho oferecida (classes com 40 alunos, etc.). Mas, os conflitos também fazem parte do processo de ensino/aprendizagem e devem ser aproveitados como tal...
Mais uma vez obrigado pelo interesse e interação.

Evaldo Lima disse...

Caro Anderson Beneli,

Muito obrigado pela visita ao meu blog. Recebi o seu texto por e-mail de uma amiga e ela citava como fonte o Portal Aprendiz.

Mas o equívoco já foi desfeito. Coloquei o seu blog como fonte ao final do texto, com o devido link para a postagem original.

Saudações!
Blog do Prof. Evaldo.

Anderson Benelli disse...

Muito Obrigado Evaldo. O equívoco fica por parte do Portal Aprendiz enviei o link com o texto para eles. E eles postaram no Portal, citaram a autoria, mas não a fonte de origem de onde tiraram o texto (parte do meu TCC e de um livro ainda não publicado) que é este blog. Com a citação do blog as pessoas terão como entrar em contato comigo, assim recebo a devolutiva das críticas. E as pessoas podem ter acesso à outros textos que compartilho aqui.